Entendendo o paciente que está na cadeira
O bruxismo, em suas diversas manifestações, é um desafio constante em nossas clínicas. Para otimizar o diagnóstico e o manejo, é fundamental estar atualizado sobre sua real prevalência e como se distribui em diferentes populações, bem como compreender as metodologias diagnósticas que alicerçam esses dados. Com base em uma análise aprofundada de recentes estudos e meta-análises, apresentamos um panorama detalhado da prevalência do bruxismo, desde uma perspectiva global até grupos populacionais específicos.
A Visão Global: Bruxismo do Sono e em Vigília
Zieliński, Pajak e Wójcicki (2024)revelam que a prevalência total do bruxismo (somando o sono e a vigília) atinge 22,22% da população mundial. Ao discriminarmos por tipo:
- O bruxismo do sono afeta 21% globalmente.
- O bruxismo em vigília é ligeiramente mais comum, com uma prevalência de 23%.
Os autores desta meta-análise destacam a heterogeneidade dos métodos diagnósticos entre os estudos incluídos, baseados fortemente em questionários e autorrelatos, que podem apresentar incertezas. A polissonografia (PSG), embora seja o “padrão ouro”, possui limitações de custo e viabilidade para estudos em larga escala.

Variações Regionais: Onde o Bruxismo se Manifesta Mais?
A prevalência global esconde importantes variações regionais. No mesmo estudo citado anteriormente, Zieliński, Pajak e Wójcicki (2024)demonstram uma diferença na distribuição do bruxismo de acordo com a região estudada:
- Para o bruxismo do sono, a América do Norte lidera com 31%, seguida pela América do Sul (23%), Europa (21%) e Ásia (19%).
- Já para o bruxismo em vigília, a América do Sul apresenta a maior prevalência, com 30%, superando a Ásia (25%) e a Europa (18%).
Essa alta prevalência do bruxismo em vigília em nossa região (América do Sul) merece especial atenção, talvez refletindo fatores psicossociais e de estilo de vida específicos que impactam nossos pacientes.
O Impacto do Gênero e da Idade na Prevalência
A mesma meta-análise de Zieliński, Pajak e Wójcicki (2024) oferece insights cruciais sobre as diferenças por gênero e idade, utilizando os variados métodos diagnósticos (predominantemente questionários e autorrelatos) dos estudos originais:
- Bruxismo do Sono: A prevalência média é maior em mulheres (11,68%) do que em homens (8,48%). Notavelmente, a idade é um fator significativo para mulheres, com a prevalência subindo de 8,90% em menores para 14,49% em adultas. Em homens, a prevalência parece estável com a idade.
- Bruxismo em Vigília: Também é mais prevalente em mulheres (17,07%) do que em homens (8,33%). Para ambos os sexos, a prevalência do bruxismo em vigília não mostrou variação significativa com a idade.
Esses dados sugerem que devemos estar particularmente atentos ao bruxismo do sono em mulheres adultas e ao bruxismo em vigília em mulheres de todas as idades.
Prevalência na População Pediátrica: Hábitos Orais Deletérios e Bruxismo
A infância é uma fase crítica para o desenvolvimento de hábitos orais. A revisão sistemática e meta-análise de Gyra et al. (2025), abrangendo 54 estudos e mais de 53.000 crianças (3-18 anos), encontrou uma prevalência global de 28,9% para hábitos orais deletérios (HOD) em geral. Para identificar esses hábitos, a maioria dos estudos utilizou uma combinação de questionários e exames clínicos, embora 16 estudos tenham se baseado apenas em questionários, frequentemente por relatos parentais. Isso pode subestimar a prevalência de bruxismo e outros hábitos e dificulta a distinção entre bruxismo do sono e em vigília. Dentro desse grupo:
- O bruxismo foi o segundo HOD mais comum, com 19,0% das crianças afetadas
- Outros HOD incluem respiração bucal (21,1%), roer unhas (16,1%), impulso lingual (11,2%), sucção de polegar/dedo (9,9%) e morder lábios (9,3%).
A análise por gênero revelou que os meninos (29,4%) apresentam uma prevalência ligeiramente maior de HOD do que as meninas (26,9%). O bruxismo é o HOD mais frequente em ambos os sexos infantis (19,9% em meninos, 17,6% em meninas).
A idade também é um fator crucial:
- A maior prevalência de HOD ocorre entre 6 e 12 anos (32,1%), correspondendo à dentição mista.
- Segue-se a faixa de 3 a 6 anos (25,2%).
- A prevalência é menor em adolescentes de 12 a 18 anos (17,1%).
Especificamente no contexto brasileiro, a meta-análise de Ferrari-Piloni et al. (2022), que incluiu mais de 13.000 crianças, revelou que:
- O bruxismo do sono (possível e provável) afeta 25,8% das crianças brasileiras.
- O bruxismo em vigília é estimado em 20,1%. Os métodos de avaliação dos estudos incluídos geralmente envolveram o relato de pais versus exame clínico. Interessantemente, a prevalência do bruxismo do sono em crianças brasileiras não demonstrou variação significativa por gênero, método de avaliação ou região geográfica, sugerindo uma distribuição mais homogênea ou a influência de fatores individuais.
Bruxismo em Vigília em Adultos: Fatores de Risco em Subpopulações
A prevalência do bruxismo em vigília (AB) em adultos, conforme Stanisic et al. (2025), varia entre 25,9% para o “possível” AB (autorrelatado) e 16,0% para o “provável” AB (baseado clinicamente) na população geral. A distinção aqui é importante: o “possível” AB é autorrelatado, enquanto o “provável” AB é baseado em achados clínicos, frequentemente combinando o autorrelato com uma inspeção clínica. Este estudo ressalta que a dependência de autorrelatos pode introduzir viés de memória e subjetividade. Para uma avaliação mais precisa, métodos como o Ecological Momentary Assessment (EMA), que registra dados em tempo real, são sugeridos. Contudo, essa prevalência dispara em subpopulações específicas:
- Pacientes com Disfunções Temporomandibulares (DTM): 50,0%. Essa é uma das maiores prevalências, reforçando a forte correlação entre AB e DTM.
- Pacientes com Condições Sistêmicas como fibromialgia, Parkinson e espondilite anquilosante: 40,1%.
- Profissionais de Alta Tecnologia (“High-Tech Workers”): 44,8%.
- Estudantes de Odontologia: 34,4%. A maior consciência da condição e o estresse acadêmico podem ser fatores contribuintes.
As mulheres adultas apresentaram uma prevalência ligeiramente maior de AB (RR 1.19), embora essa diferença possa ser influenciada por fatores psicossociais e de relato.
O Desafio do Bruxismo em Pacientes Edêntulos
Um achado que desafia paradigmas é a prevalência de bruxismo em pacientes completamente edêntulos. A revisão de escopo de Orlandi et al. (2025) indica que quase 8 em cada 10 (80%) pacientes edêntulos podem apresentar bruxismo do sono. Desses, cerca de metade apresenta severidade moderada a grave. Para esta população, a avaliação do bruxismo frequentemente utiliza questionários e dispositivos eletromiográficos portáteis. A polissonografia (PSG) também é empregada, mas a curta duração do monitoramento em muitos estudos pode comprometer a precisão. Isso ressalta a importância de considerar o bruxismo mesmo na ausência de dentes, dada sua influência na reabsorção óssea, falha de implantes e fraturas protéticas.
Bruxismo em Condições Sistêmicas Especiais
A correlação do bruxismo com condições sistêmicas complexas exige nossa atenção:
- Síndrome de Down: Alam et al. (2023) encontraram uma prevalência significativa de bruxismo, variando de 33% a 35% em pacientes com Síndrome de Down. Para este estudo, sete dos oito estudos incluídos na meta-análise utilizaram questionários para avaliar o bruxismo, enquanto procedimentos diagnósticos mais robustos como a polissonografia (PSG) também são mencionados como essenciais para avaliações abrangentes. O bruxismo nessa população está frequentemente associado a outros problemas orais, como dor na ATM, apneia do sono, hábitos orais deletérios e desgaste dentário.
- Doenças Neurodegenerativas: Em idosos com doenças neurodegenerativas (DNDs), Ashwin et al. (2025) relatam uma prevalência de bruxismo 1,52 vezes maior do que em indivíduos sem essas condições. Os métodos de diagnóstico do bruxismo nos estudos analisados por esta meta-análise variaram, mas incluíram critérios clínicos e exames clínicos. Isso sugere uma ligação com a disfunção do sistema nervoso central e desequilíbrios de neurotransmissores.
- Epilepsia: Embora a meta-análise de Minervini et al. (2025) não tenha alcançado significância estatística (RR 2.00; p=0.36) devido à alta heterogeneidade (I²=89%) e ao número limitado de estudos, ela indica uma provável ligação. Os estudos incluídos nesta meta-análise utilizaram diferentes escalas e abordagens diagnósticas para o bruxismo, como questionários, entrevistas clínicas e avaliações por telefone. Pacientes com epilepsia frequentemente apresentam distúrbios do sono, incluindo bruxismo, que podem ser influenciados por mecanismos neurais compartilhados, medicações antiepilépticas e fatores psicossociais.
Implicações para a Prática Odontológica e os Desafios Diagnósticos
A análise detalhada das prevalências e dos métodos diagnósticos nos diversos grupos ressalta a complexidade do bruxismo, bem como os desafios inerentes à sua avaliação clínica. A heterogeneidade nos métodos diagnósticos, que variam de autorrelatos e questionários a exames clínicos, eletromiografia e polissonografia, impacta diretamente a comparabilidade e a precisão das estimativas de prevalência. Muitos estudos ainda dependem de relatos subjetivos (de pacientes ou pais), o que podem levar a subestimação ou superestimação.
Para nós, dentistas clínicos, isso implica a necessidade de:
- Anamnese Abrangente e Detalhada aplicando DP4: Questionar ativamente sobre bruxismo (sono e vigília) e outros hábitos orais deletérios em todos os pacientes, independentemente da idade, presença de dentes ou condição sistêmica. A anamnese deve buscar sinais e sintomas variados, considerando a complexidade da condição.
- Exame Clínico Minucioso: Utilizar o exame clínico como uma ferramenta essencial para identificar os sinais clínicos, como desgastes dentários, hipertrofia muscular, língua dentada, dor à palpação e outros sinais que corroborem ou sugiram a presença de bruxismo, complementando o autorrelato.
- Utilização de Ferramentas Objetivas como a Placa Diagnóstica: A análise dinâmica do bruxismo do sono pode ser realizada através do exame da Placa Diagnóstica, podendo avaliar de forma didática e visual a intensidade, o padrão da atividade do bruxismo, cêntrico ou excêntrico, e os dentes recebendo a sobrecarga, podendo identificar interferências oclusais. Embora a polissonografia e a eletromiografia possam ser mais complexas para a rotina clínica, estar ciente de sua existência e da possibilidade de encaminhamento para diagnósticos mais objetivos também é fundamental, especialmente em casos de maior complexidade.
- Educação do Paciente: Informar sobre a alta prevalência e os múltiplos fatores associados, especialmente em subgrupos de risco. É crucial explicar os métodos de diagnóstico (e suas limitações) para alinhar as expectativas e incentivar a colaboração do paciente.
- Abordagem Personalizada e Multidisciplinar: Reconhecer que a prevalência pode variar drasticamente de acordo com a população de interesse, exigindo uma avaliação individualizada e considerando o contexto de vida do paciente. A parceria com outros profissionais de saúde (médicos do sono, pediatras, neurologistas, psicólogos, fonoaudiólogos, etc) torna-se essencial para um manejo integral, especialmente em casos de associação com condições sistêmicas.
- Manter-se Atualizado: A pesquisa sobre bruxismo e distúrbios do sono é dinâmica. Continuar a acompanhar as novas evidências e o desenvolvimento de ferramentas padronizadas, nos permitirá oferecer o melhor cuidado possível e melhorar a qualidade de vida de nossos pacientes.
Ao incorporar esses dados de prevalência e as nuances dos métodos diagnósticos em nossa prática diária, podemos aprimorar nossa capacidade de identificar e intervir precocemente no bruxismo, contribuindo significativamente para a saúde e a qualidade de vida de nossos pacientes.
Referências bibliográficas:
- Zieliński, G., Pająk, A., & Wójcicki, M. (2024). Global Prevalence of Sleep Bruxism and Awake Bruxism in Pediatric and Adult Populations: A Systematic Review and Meta-Analysis. Journal of clinical medicine, 13(14), 4259. https://doi.org/10.3390/jcm13144259
- Gyra, G. G., Kumar, V. S., & Janakiram, C. (2025). Prevalence of Oral Deleterious Habits among children: A systematic review and meta-analysis. Journal of oral biology and craniofacial research, 15(6), 1539–1562. https://doi.org/10.1016/j.jobcr.2025.09.004
- Ferrari-Piloni, C., Barros, L. A. N., Evangelista, K., Serra-Negra, J. M., Silva, M. A. G., & Valladares-Neto, J. (2022). Prevalence of Bruxism in Brazilian Children: A Systematic Review and Meta-Analysis. Pediatric dentistry, 44(1), 8–20.
- Stanisic, N., Saracutu, O. I., Colonna, A., Wu, W., Manfredini, D., & Häggman-Henrikson, B. (2025). AWAKE BRUXISM PREVALENCE ACROSS POPULATIONS: A SYSTEMATIC REVIEW AND META-ANALYSIS. The journal of evidence-based dental practice, 25(3), 102171. https://doi.org/10.1016/j.jebdp.2025.102171
- Orlandi, D. B., Feldmann, A., Polmann, H., de Oliveira, J. M. D., Pauletto, P., Stefani, C. M., Gonçalves, T. M. S. V., & De Luca Canto, G. (2025). Bruxism in Completely Edentulous Patients: A Scoping Review. Journal of oral rehabilitation, 52(11), 1912–1921. https://doi.org/10.1111/joor.14046
- Alam, M. K., Alsharari, A. H. L., Shayeb, M. A. L., Elfadil, S., Cervino, G., & Minervini, G. (2023). Prevalence of bruxism in down syndrome patients: A systematic review and meta-analysis. Journal of oral rehabilitation, 50(12), 1498–1507. https://doi.org/10.1111/joor.13563
- Minervini, G., Franco, R., Di Blasio, M., Martelli, M., Gargari, M., Bollero, P., & Cicciù, M. (2025). Prevalence of bruxism in patients affected by epilepsy: a systematic review and meta-analysis. Acta odontologica Scandinavica, 84, 155–164. https://doi.org/10.2340/aos.v84.42959