Dentista, você já atendeu uma criança com sinais claros de bruxismo e ficou em dúvida sobre a melhor conduta? Tudo começa com um bom diagnóstico e para isso é preciso entender as causas e fatores de risco. Afinal, o bruxismo infantil está presente em uma a cada quatro crianças (Ferrari-Piloni et al., 2022 e Zieliński et al., 2024) e sua etiologia ainda permanece cercada de controvérsias. Durante décadas, acreditamos que a má oclusão era a vilã. Mas será que é mesmo?
Aqui estão reunidos os estudos mais relevantes e recentes sobre o tema para trazer a você, de forma direta e embasada, o que a ciência tem demostrado sobre causas e fatores de risco do bruxismo infantil. Spoiler: prepare-se para desconstruir alguns mitos.
Panorama Geral: O Bruxismo é Multifatorial
Antes de mergulharmos nos fatores específicos, uma certeza: o bruxismo infantil resulta de uma complexa interação entre genética e ambiente (Pecori et al., 2024; Sousa et al., 2026). Não existe uma causa única — e é exatamente por isso que abordagens terapêuticas simplistas (como focar apenas na oclusão) tendem a falhar. Os estudos atuais separam os fatores da seguinte forma:
1. Genéticos
1.a) Hereditariedade
1.b) Polimorfismos genéticos
2. Ambientais
2.a) Fatores psicossociais (ansiedade, estresse, transtornos de humor, estrutura familiar, bullying, eventos adversos, uso de telas)
2.b) Fatores fisiopatológicos (distúrbios do sono, sedentarismo)
2.c) Fatores morfológicos (má oclusão, obstrução nasal)
Agora, vamos ao que realmente importa: o que a evidência científica mostra para cada fator?
- Fatores Genéticos
- A Hereditariedade é Inegável
Um estudo bem recente e publicado por pesquisadores brasileiros (Sousa, et al., 2026) avaliou a influência de fatores genéticos e ambientais associados ao bruxismo noturno em crianças. Este estudo transversal incluiu 219 pares de gêmeos (438 pré-escolares de 3-5 anos) de Teresina, Piauí, comparando pares idênticos ou monozigóticos (MZ) e não idênticos ou dizigóticos (DZ) para calcular a herdabilidade do bruxismo. Foi o primeiro estudo com gêmeos em pré-escolares brasileiros, combinando exame clínico com relato parental para diagnóstico. Os resultados foram contundentes, apesar da maior prevalência de bruxismo do sono em gêmeos DZ (60 de 83 crianças, ou seja, 72,3%), os pares idênticos MZ mostraram maiores chances de coincidência de diagnósticos tanto positivos quanto negativos. Isso significa que houve uma forte correlação da presença de bruxismo entre os gêmeos MZ, com 12,21 vezes mais chance de coincidência positiva de diagnóstico (ambos com bruxismo) comparados aos DZ. DO cálculo de herdabilidade demonstrou que 94% da variação fenotípica do bruxismo é explicada por fatores genéticos. Esses achados confirmam os encontrados em duas revisões sistemáticas publicadas anteriormente (Restrepo-Serna e Winocur, 2023 e Pereira, et al., 2024) que verificaram uma possível associação genética na ocorrência de bruxismo em crianças.
Aplicação clínica: A evidência genética é forte. Pergunte sobre histórico familiar de bruxismo — é um dos fatores de risco mais consistentes na literatura.
- Polimorfismos — a Busca pela Explicação Genética
De acordo com Pecori et al. (2024), a literatura atual sobre a genética do bruxismo, independente de idade, divide os genes identificados até então em duas categorias principais:
- Genes relacionados ao cérebro: Incluem genes ligados a enzimas (MMP2, MMP9, COMT), ao sistema de dopamina (DRD1 a DRD4) e serotonina (5-HT1A, 5-HT2A), além de genes que regulam o estresse (NTRK2, BDNF).
- Genes relacionados aos músculos: Envolvem a regulação da atividade muscular, como os genes ACTN e MYO3B.
Focando em bruxismo infantil, o estudo transversal do tipo caso-controle de Scariot et al. (2019) investigou 150 crianças brasileiras com idade entre 7 e 12 anos, analisando polimorfismos em alguns genes do sistema dopaminérgico. Os pesquisadores descobriram que variações no gene DRD2 estão diretamente relacionadas ao bruxismo, com crianças com essa variação apresentando um risco 2,47 vezes maior em comparação ao grupo controle. Outros genes também foram estudados: ANKK1 e COMT, e foram associados ao ranger e apertamento dental em diferentes momentos (diurno e noturno). Já a revisão sistemática de Restrepo-Serna e Winocur (2023) sintetizou evidências que associam o bruxismo não apenas à dopamina (DRD2), mas também ao gene ACTN3, que regula o metabolismo das fibras musculares. Apesar de ter sido realizado em adultos, o estudo de Pecori et al. (2024), identificou três novos genes candidatos (NLGN1, RIMBP2 e LHFP) expressos em tecidos cerebrais, consolidando a teoria de que o bruxismo é um fenômeno mediado pelo Sistema Nervoso Central (SNC).
Aplicação clínica: Mesmo que não se lembre da “sopa de letras” dos genes possivelmente relacionados ao bruxismo, é importante entender que ou tem relação com o cérebro ou com os músculos.
- Fatores Ambientais
- Fatores Psicossociais
- Ansiedade e Estresse — A “Válvula de Escape” Psíquica
O bruxismo infantil é frequentemente o reflexo físico de tensões emocionais e sociais que a criança não consegue processar. Estudos recentes demonstram que o ambiente familiar, experiências traumáticas e pressões sociais são gatilhos determinantes para a atividade muscular mastigatória repetitiva.
O estudo transversal de Pecori et al. (2024), realizado a partir de uma base de dados de uma coorte italiana com crianças, adultos e idosos, confirmou que a ansiedade é um fator de risco estatisticamente significativo para o bruxismo. Eles encontram um aumento do risco de bruxismo pela ansiedade de 2,54 vezes, ou seja, pessoas ansiosas têm 2,54 vezes mais chance de desenvolver bruxismo do que pessoas não ansiosas. Os pesquisadores sugerem que o bruxismo funcionaria como uma “válvula de escape psíquica” para mitigar a ansiedade em um processo mediado pela liberação de catecolaminas (adrenalina, noradrenalina e dopamina) no sistema nervoso central.
Aplicação clínica: Eduque os pais sobre os sinais do bruxismo. Muitas vezes, o bruxismo não é diagnosticado porque os pais não reconhecem os sintomas. Crianças de famílias com maior poder aquisitivo podem estar mais expostas a demandas e pressões emocionais.
- Influência dos Pais no Bruxismo dos Filhos
Na linha de investigação sobre o ambiente doméstico, Moya-López et al. (2025) conduziram um estudo transversal na Espanha com 186 crianças, comparando filhos de pais divorciados com filhos de pais que coabitam. Os resultados revelaram que o divórcio parental é um evento adverso que eleva os níveis de ansiedade e de atividade de bruxismo relatado (possível bruxismo). Os autores investigaram também a intensidade da ansiedade e a presença de bruxismo nesses dois grupos e verificaram que a ansiedade em alta intensidade atua como uma variável moderadora direta nessa relação entre pais separados e filhos com bruxismo relatado. Apesar de ser um dado importante de se observar na clínica diária, é preciso ter cautela com os resultados desse estudo visto que por ser um estudo transversal não é capaz de estabelecer uma relação de causa e efeito.
💡Glossário da ciência: estudo transversal é um tipo de pesquisa observacional em que a população estudada é analisada em um único momento no tempo, ou seja, não existe acompanhamento ao longo de um período, por isso é ideal para verificar a frequência de uma condição, mas não estabelece relação de causa e efeito, pois não determina se a causa veio antes do efeito.
A influência do perfil psicológico dos pais também foi explorada por Korkmaz et al. (2024) em um estudo transversal com 94 crianças entre 6 e 12 anos de idade na Turquia. A pesquisa identificou que o estado psiquiátrico dos pais é um fator de risco significativo, com destaque para a ansiedade materna e o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) paterno. Filhos de mães com níveis de ansiedade maiores apresentaram 7,59 vezes mais chance de relatar bruxismo do sono quando comparado ao filhos de mãe não ou menos ansiosas. Enquanto que filhos de pais com nível moderado de TOC apresentaram 1,85 vezes mais bruxismo do que filhos de pais com ausência desse transtorno. Além disso, o estudo de Almabadi et al. (2025) na Arábia Saudita, com 213 pais, reforçou que a estrutura familiar monoparental e o baixo nível de escolaridade materna, que pode dificultar o reconhecimento de sintomas, estão associados a uma maior prevalência de bruxismo reportado. Outro dado interessante que Almabadi et al encontraram foi que pais que diziam ter bruxismo reportaram mais bruxismo noturno em seus filhos do que pais que não tinha o auto relato.
Aplicação clínica: O divórcio parental e a estrutura familiar monoparental são fatores de risco relevantes. Investigue eventos estressores na anamnese e considere encaminhamento psicológico quando sinais claros de disfunção familiar no contexto do DP4 infantil.
- Bullying, Pandemia e Telas no Contexto do Bruxismo Infantil
O impacto de interações sociais negativas foi quantificado por Bolsson et al. (2023) em um estudo transversal realizado a partir de uma coorte brasileira com 427 adolescentes entre 11 e 15 anos de idade. Os autores demonstraram que o sofrimento psicológico causado pelo bullying escolar e pelo bullying verbal específico sobre a condição bucal é um possível preditor para a atividade do bruxismo associado à má qualidade do sono. Vítimas de bullying escolar tiveram 2,06 vezes mais prevalência de bruxismo associado à baixa qualidade do sono. Complementando esse cenário de estresse ambiental, Lima et al. (2022) observaram, em um estudo longitudinal prospectivo com 105 crianças brasileiras, que o isolamento social e as mudanças de rotina impostas pela pandemia de COVID-19 elevaram a incidência de bruxismo (36,2%), impulsionada pelo aumento de distúrbios do sono e exposição excessiva a telas. Este estudo foi conduzido antes (T1, presencial) e durante a pandemia (T2, online) com crianças de 8 a 10 anos em Campina Grande, Paraíba. Os pais/responsáveis responderam questionários sobre características sociodemográficas, uso de dispositivos eletrônicos, bruxismo do sono e a Escala de Distúrbios do Sono para Crianças (SDSC). Os resultados mostraram aumento significativo não só no bruxismo, como também de distúrbios do sono, de 62,9% (pré-pandemia) para 70,5% durante pandemia.
Aplicação clínica: O bullying é um fator de risco subestimado para bruxismo. Na anamnese, investigue se a criança sofre bullying, especialmente relacionado à aparência bucal. Encaminhe para acompanhamento psicológico quando necessário. O DP4 infantil tem as perguntas sobre esse tema, a partir de 9 anos a criança deve ter capacidade de responder o questionário SCARED sozinha.
Aplicação clínica: A pandemia de COVID-19 teve impacto significativo no bruxismo infantil. Crianças com maior exposição a telas e distúrbios do sono merecem atenção especial. O uso excessivo de dispositivos eletrônicos pode alterar o ritmo circadiano e aumentar os níveis de cortisol, desencadeando o bruxismo.
💡Glossário científico: Um estudo longitudinal prospectivo é um tipo de pesquisa observacional em que você acompanha grupos de pessoas ao longo do tempo (coorte), comparando aqueles expostos a um fator com aqueles não expostos, para ver quem desenvolve determinado desfecho (condição ou doença), por isso é possível determinar incidência de determinada condição e estabelecer relação de causa-efeito também.
- Fatores Fisiopatológicos
- Distúrbios Respiratórios do Sono — A Conexão Mais Forte
Uma revisão sistemática publicada em 2024 (Orradre-Burusco et al., 2024) avaliou a relação entre bruxismo do sono e distúrbios respiratórios do sono. Incluiu 29 artigos observacionais, transversais em sua maioria, com crianças entre 2 a 18 anos. O resultado encontrado sugere associação entre as condições: dos 29 artigos incluídos, 25 encontraram a presença de ambas as condições simultaneamente. Entretanto, a qualidade da evidência dos estudos incluídos era baixa em sua maioria, com alto risco de viés, e alta heterogeneidade entre eles, impedindo uma meta-análise. Mas os autores sugerem que o bruxismo poderia ser um mecanismo protetor para restaurar a permeabilidade das vias aéreas durante episódios de apneia, através da protrusão mandibular.
O estudo com gêmeos pré-escolares de Sousa et al., (2026) também investigou fatores respiratórios associados ao bruxismo, encontrando uma maior prevalência de bruxismo nas crianças com bronquite (OR = 3,32; IC 95%: 1,32–8,34) e ronco (OR = 2,46; IC 95%: 1,28–4,71). Um resultado similar foi encontrado no estudo de Almabadi et al. (2025) que avaliou a relação entre bruxismo do sono em crianças abaixo de 13 anos com características sociodemografica dos pais e obstrução nasal nas crianças reportado pelos pais. Encontraram um resultado estatisticamente significante: pais que relataram obstrução nasal como causa de bruxismo tiveram filhos com 5,49 vezes mais chance de ter bruxismo (OR: 5,49; IC 95%: 1,04–29,08).
Aplicação clínica: O bruxismo pode ser um sinal preditivo de problemas respiratórios do sono. Sempre questione aplique o passo-a-passo do diagnóstico, incluindo exames sobre ronco, dificuldade respiratória, sudorese noturna e sono agitado. Encaminhe para avaliação otorrinolaringológica quando houver suspeita. E avalie uma cefalmétrica de perfil para ver o volume de adenóides. Etapa diagnóstico da metodologia DTC infantil.
💡Glossário científico: Estudo observacional é um método de pesquisa em que os investigadores não intervém no ambiente ou na amostra, apenas observa e registra os dados coletados., com objetivo de analisar comportamentos, eventos ou exposição à riscos para determinar associações, estabelecer causas ou monitorar efeitos. Inclui 3 principais tipos de desenhos de estudo: transversal, coorte e caso-controle.
- Prática de Esportes e Estilo de Vida — O Sedentarismo como Fator de Risco
A associação entre distúrbios do sono, prática de esportes e provável bruxismo do sono em crianças foi investigada por pesquisadores brasileiros (Leal et al., 2023). O estudo transversal contou com uma ampla amostra de 739 crianças com idade entre 8 e 10 anos com dentição mista. Os pais/responsáveis responderam questionários sociodemográficos, a Escala de Distúrbios do Sono para Crianças (SDSC) e a Escala de Energia Circadiana. Hábitos parafuncionais foram avaliados usando o Teste Orofacial Nórdico de Triagem (NOT-S). A prevalência de bruxismo do sono provável foi de 9,1%. Os resultados estatisticamente significantes demonstraram que crianças com estilo de vida sedentário tiveram 1,92 vezes mais chance de bruxismo (OR: 1,92; IC 95%: 1,04–3,54) e sonolência diurna excessiva, 2,17 vezes mais chance (OR = 2,17; IC 95%: 1,11–4,29).
Aplicação clínica: O sedentarismo pode ser considerado um fator de risco para bruxismo. Crianças que não praticam esportes estão mais sujeitas a dissonia, ansiedade, estresse e hábitos prejudiciais. Oriente os pais na etapa de tratamento sobre a importância da atividade física regular.
- Fatores Morfológicos
- Má Oclusão Dental — O Mito que Precisa ser Desconstruído
A associação entre bruxismo e diversos tipos de maloclusão foi investigada em duas revisões sistemáticas. Thijs et al. (2021) quiseram responder à pergunta clínica: crianças e adolescentes entre 3 e 18 anos de idade com maloclusão apresentavam maior risco de ter desordens orofaciais miofuncionais, incluindo bruxismo, em comparação à crianças/adolescentes sem maloclusão? Dentre os 17 estudos incluídos na revisão, somente 7 avaliaram a relação entre bruxismo e maloclusão. Apesar de apresentarem baixo risco de viés, segundo os autores belgas, não foi possível realizar uma comparação entre os estudos devido à heterogeneidade no diagnóstico de bruxismo e das maloclusões. Alguns encontraram associações pontuais, outros não. Assim não foi possível estabelecer uma associação, levando-os a concluírem que o resultado era inconclusivo.
No mesmo ano foi publicada outra revisão sistemática com maior rigor metodológico incluindo não apenas análise do risco de viés dos estudos incluídos, mas também a qualidade da evidência encontrada, determina pela escala GRADE. Com uma pergunta clínica mais focada na associação entre bruxismo e maloclusão, a revisão com meta-análise realizada por pesquisadores brasileiros (Ribeiro-Lages et al., 2021) incluiu 10 estudos para análise. Os resultados da meta-análise foram de ausência de associação entre bruxismo e classes I, II, III de Angle e mordida cruzada posterior. Houve uma ligeira associação entre bruxismo e apinhamento dentário anterior (OR = 1,53; IC = 1,03-2,26), mas os autores sugerem que esteja mais relacionada ao bruxismo como fator de risco para o apinhamento e não o contrário, dado que a força de apertamento seria maior do que a resistência dos dentes ao movimento. Outro motivo seria por características craniomorfológicas associadas a distúrbios respiratórios do sono. Atresia de arcos dentários e palato estreito podem indicar dimensões reduzidas das vias aéreas superiores, favorecendo distúrbios do sono e consequentemente de bruxismo.
Aplicação clínica: Pare de culpar somente a oclusão. Fatores periféricos (anatômicos-estruturais) têm papel diminuído ou inexistente na patogênese do bruxismo. O foco deve estar em fatores centrais, respiratórios e sistêmicos.
💡Glossário científico: Revisão sistemática é um tipo de estudo secundário que reúne, seleciona e sintetiza de forma rigorosa, imparcial e reproduzível estudos disponíveis na literatura sobre um determinado tema com objetivo de responder uma pergunta clínica específica. Segue métodos estruturados de pesquisa, seleção, avaliação e compilação dos artigos para abranger o melhor possível toda a literatura publicada a respeito do tema para evitar viés de seleção. Deve incluir análise da qualidade metodológica dos estudos e também a qualidade da evidência analisada. Pode ou não incluir uma meta-análise para combinar estatisticamente os resultados dos estudos analisados.
Conclusão: O que Fazer na Prática Clínica?
O bruxismo infantil é multifatorial, com forte componente genético e influência significativa de fatores psicossociais, respiratórios e comportamentais. A evidência científica atual permite extrair 9 lições práticas:
1. Fatores genéticos são determinantes — Herdabilidade de 94% (Sousa et al., 2026). Pergunte sobre histórico familiar de bruxismo. Lembrando que epigenética é a manifestação do gene no meio ambiente. Ou seja o paciente precisa estar no meio propicio ao desenvolvimento do bruxismo, o que corrobora para hábitos serem controlados durante o tratamento.
2. Investigue distúrbios respiratórios do sono — O bruxismo pode ser um sinal preditivo de apneia. Crianças que roncam têm 2x mais chance de bruxismo (Sousa et al., 2026).
3. Ansiedade e estresse são fatores de risco reais — Crianças ansiosas têm 2,54x mais chance de bruxismo (Pecori et al., 2024). Filhos de pais divorciados apresentam níveis significativamente maiores de bruxismo (Moya-López et al., 2025). Organização emocional parental muda completamento o desfecho do bruxismo infantil.
4. Bullying é um fator de risco subestimado — Vítimas de bullying escolar têm 2,06x mais prevalência de bruxismo associado à baixa qualidade do sono (Bolsson et al., 2023).
5. A pandemia de COVID-19 impactou o bruxismo — Incidência de 36,2% durante a pandemia. Uso excessivo de dispositivos eletrônicos é fator de risco (Lima et al., 2022).
6. Sedentarismo é fator de risco — Crianças sedentárias têm 1,92x mais chance de bruxismo (Leal et al., 2023).
7. Estrutura familiar importa — Crianças de pais solteiros ou divorciados têm maior risco (Moya-López et al., 2025). Investigue eventos estressores sistêmicos no diagnóstico e não pule a etapa do DP4 infantil.
8. Pare de culpar a oclusão — A literatura atual NÃO suporta a má oclusão como causa primária do bruxismo (Thijs et al., 2021 e Ribeiro-Lages et al., 2021).
9. Avaliação multidisciplinar é fundamental — O dentista tem papel crucial na identificação precoce, mas o manejo adequado frequentemente requer equipe multiprofissional.
Mensagem Final
O papel do dentista vai muito além da avaliação dental: inclui identificar sinais de distúrbios do sono, ansiedade, bullying, eventos estressores familiares, tratar o bruxismo de forma multidisciplinar, encaminhando adequadamente quando necessário, para uma abordagem integral da criança. A ciência mudou — e nossa prática precisa acompanhar.
Referências Bibliográficas
- Scariot et al. (2019) — Single nucleotide polymorphisms in dopamine receptor D2 are associated with bruxism and its circadian phenotypes in children. CRANIO.
- Thijs et al. (2021) — Oral Myofunctional and Articulation Disorders in Children with Malocclusions: A Systematic Review. Folia Phoniatr Logop.
- Ribeiro-Lages et al. (2021) — Is there association between dental malocclusion and bruxism? A systematic review and meta-analysis. Journal of Oral Rehabilitation.
- Lima et al. (2022) — Impact of the COVID-19 pandemic on sleep quality and sleep bruxism in children eight to ten years of age. Brazilian Oral Research.
- Leal et al. (2023) — Influence of the practice of sports, sleep disorders and habits on probable sleep bruxism in children with mixed dentition. Oral Diseases.
- Bolsson et al. (2023) — Impact of dental bullying on bruxism associated with poor sleep quality among adolescents. Brazilian Oral Research.
- Orradre-Burusco et al. (2024) — Sleep bruxism and sleep respiratory disorders in children and adolescents: A systematic review. Oral Diseases.
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- Almabadi et al. (2025) — Parental Sociodemographic Characteristics and Bruxism’s Risk Factors Among Children: Saudi Arabian Evaluation. Pediatric Health, Medicine and Therapeutics.
- Moya-López et al. (2025) — Parenting Styles of Divorced Parents and Their Influence on Their Children’s Bruxism: A Cross-Sectional Study. Pediatric Health, Medicine and Therapeutics.
- Sousa et al. (2026) — Genetic and environmental influence on sleep bruxism in preschoolers: A twin study. Sleep Medicine.
- Zieliński, G., Pająk, A., & Wójcicki, M. (2024). Global Prevalence of Sleep Bruxism and Awake Bruxism in Pediatric and Adult Populations: A Systematic Review and Meta-Analysis. Journal of clinical medicine, 13(14), 4259.
- Ferrari-Piloni, C., Barros, L. A. N., Evangelista, K., Serra-Negra, J. M., Silva, M. A. G., & Valladares-Neto, J. (2022). Prevalence of Bruxism in Brazilian Children: A Systematic Review and Meta-Analysis. Pediatric dentistry, 44(1), 8–20.
- Restrepo-Serna C and Winocur E (2023) Sleep bruxism in children, from evidence to the clinic. A systematic review. Front. Oral. Health 4:1166091. doi: 10.3389/froh.2023.1166091
- Pereira, L. F., Muniz, F. W. M. G., de Lima, M. D. M., Rösing, C. K., de Deus Moura, L. F. A., de Moura, M. S., & Lima, C. C. B. (2024). Genetics and sleep bruxism: a systematic review and meta-analysis of studies with twins. Sleep & breathing = Schlaf & Atmung, 28(5), 2269–2281. https://doi.org/10.1007/s11325-024-03090-5
- Korkmaz, C., Bellaz, İ. B., Kılıçarslan, M. A., Dikicier, S., & Karabulut, B. (2024). Influence of psychiatric symptom profiles of parents on sleep bruxism intensity of their children. Acta odontologica Scandinavica, 82(1), 33–39. https://doi.org/10.1080/00016357.2023.2254374