O que a ciência realmente sabe?
Olá, dentista!
Você já se perguntou se o uso de alinhadores ortodônticos transparentes pode induzir ou agravar o bruxismo?
O avanço da ortodontia digital nos últimos anos trouxe essa tecnologia para o centro da prática clínica, expandindo a possibilidade de tratamento ortodôntico para o público adulto que não queria utilizar brackets nos dentes para alinhá-los.
Nesta 5ª edição do Blog Científico da SIBX, reunimos evidências recentes que investigaram uma possível associação entre o tratamento com alinhadores e atividade de bruxismo.
Boa leitura!
O tratamento com alinhadores aumenta a atividade muscular mastigatória?
Apesar de atualmente não podermos afirmar que o tratamento ortodôntico com alinhadores é um fator de risco ou de proteção ao bruxismo, será que ele pode causar alguma alteração na resposta muscular ou na força de mordida?
Essa pergunta clínica foi o objetivo de um estudo piloto realizado em 2023 por pesquisadores brasileiros com 10 pacientes acompanhados ao longo de 8 meses1. Os principais achados foram:
- Aumento significativo na atividade eletromiográfica tanto do músculo masséter superficial quanto do temporal anterior durante o tratamento com alinhadores. O aumento foi mais acentuado no temporal anterior, chegando a cerca de 90% de incremento no final de 8 meses em comparação ao início.
- Houve uma redução de aproximadamente 30% nos valores de frequência dos sinais eletromiográficos para ambos os músculos ao final do tratamento quando comparado ao início, o que sugere fadiga muscular ou alteração no recrutamento de fibras durante o repouso e mordida.
- Foi evidenciada uma diminuição de cerca de 20% na força de mordida (kgf) ao longo do follow-up, independentemente de o alinhador estar ou não presente no momento da medição muscular.
Segundo os autores, a redução na força de mordida, apesar do aumento da atividade muscular elétrica, sugere uma adaptação do sistema estomatognático gerando um novo padrão de recrutamento muscular frente ao tratamento ortodôntico com alinhadores. A adaptação funcional ocorreria independentemente da presença física do dispositivo no teste final, indicando uma mudança real no controle neuromuscular pelo sistema nervoso central após o tratamento.
De forma interessante, os autores relatam que alguns dos participantes se queixaram de abertamente dental após o início do tratamento ortodôntico, apesar de não terem relatado dor. O design encapsulado dos alinhadores (espessura de ~0,7 mm) alteraria a postura de repouso mandibular e a biomecânica da deglutição salivar, impedindo o contato dente-a-dente, favorecendo o hábito de apertamento, segundo discutem os autores.
O estresse pode contribuir para apertamento com alinhadores?
Um ensaio clínico randomizado do tipo crossover (em que os próprios participantes do grupo teste servem como seus próprios controles) avaliou o impacto de alinhadores passivos sob estresse induzido2. Vinte e uma estudantes de odontologia foram submetidas a dois testes psicológicos de estresse em que precisavam fazer cálculos e contagens matemáticas em 10 minutos, sendo um teste utilizando alinhador e outro, sem. Ao final dos testes, os participantes deveriam responder dois questionários, um de somatização e outro de percepção de apertamento. Os principais achados foram:
- O uso do dispositivo não afetou significativamente a atividade muscular mastigatória medida por eletromiógrafo, nem a percepção subjetiva de apertamento relatada pelas participantes;
- A frequência dos episódios de contração muscular foi significantemente associada com os scores do questionário de somatização.
Apesar de apresentar uma amostra pequena, muito específica (estudantes de odontologia somente do gênero feminino) e uma análise pontual ao invés de longitudinal, os autores discutem sobre a disparidade entre percepção e realidade quanto ao apertamento (bruxismo cêntrico). O fato de os alinhadores não aumentarem a atividade muscular objetiva durante um momento de estresse sugeriria que a queixa de apertamento de alguns pacientes seria fruto de uma hipervigilância oclusal ou amplificação somatossensorial. Assim, a somatização e traços de personalidade seriam mediadores mais importantes para o apertamento do que a mecânica do alinhador em si.
Clinicamente, o estudo sugere que o dentista deve identificar pacientes hipervigilantes no screening inicial, pois eles têm maior risco de interpretar a presença do dispositivo como um desconforto muscular.
Qual o impacto dos alinhadores em dor dentária e sensibilidade muscular?
Um estudo multicêntrico prospectivo (longitudinal) realizado em três clínicas universitárias (Canadá e Itália)3 se propôs a responder essa pergunta clínica. Vinte e sete pacientes foram selecionados e deveriam dar um score utilizando a Escala Visual Analógica 4x/dia sobre dor muscular ou dental e ao final do dia sobre estresse durante 4 semanas seguidas. Na primeira semana o tratamento ortodôntico não havia iniciado ainda, na segunda semana os participantes utilizaram um alinhador passivo e nas outras duas semanas, alinhadores ativos. Os resultados encontrados foram:
- O estudo identificou que a dor dentária e a sensibilidade muscular induzidas por alinhadores transparentes são leves, com picos nas primeiras 24-48 horas e de limitada significância clínica;
- Curiosamente, o alinhador passivo gerou picos de dor similares aos ativos;
- Sensibilidade muscular: Houve um aumento muito sutil na sensibilidade muscular, mas de baixa significância clínica. Nenhum participante desenvolveu DTM (disfunção temporo-mandibular) ou dor moderada/grave durante as 4 semanas de acompanhamento.
- Fatores Moduladores: Estresse e ansiedade foram os principais preditores da intensidade da dor percebida, e comportamentos orais (bruxismo) correlacionaram-se com a sensibilidade muscular.
Os autores argumentam que os sintomas dolorosos dos alinhadores são transitórios e bem tolerados pela maioria dos pacientes saudáveis. A dor provocada pelo alinhador passivo (sem movimentação programada) sugeriria que a simples presença física do dispositivo e a alteração da dimensão vertical seriam suficientes para disparar respostas nociceptivas leves. Isso reforça a necessidade de avaliar o estado psicológico do paciente previamente ao tratamento ortodôntico, pois indivíduos ansiosos podem ter uma experiência de dor amplificada, mesmo com forças ortodônticas mínimas.
Alinhador: fator de risco ou de proteção para bruxismo?
Uma revisão sistemática4 buscou responder essa pergunta e investigou a associação entre tratamento ortodôntico com alinhadores e bruxismo do sono e de vigília. Para tanto, os autores incluiram 11 estudos para análise, sendo 1 caso-controle, 2 transversais, 2 coortes, 1 quasi-experimental e 5 ensaios clínicos randomizados, totalizando 818 pacientes participantes.
Devido a alta heterogeneidade entre os estudos, não foi possível realizar uma meta-análise. Assim, os autores realizaram uma análise qualitativa dos resultados encontrados, classificando-os em três possíveis tipos de fatores:
- Neutro: quando o uso do alinhador não resultou em mudanças estatisticamente significantes na frequência de bruxismo, índice de bruxismo do sono, comportamentos de bruxismo de vigília ou parâmetros de eletromiografia comparados a grupos controle ou a antes do tratamento ortodôntico;
- Protetor: quando a terapia com alinhadores resultou em reduções estatisticamente significantes para pelo menos um desfecho relacionado a bruxismo, como contrações tônicas (bruxismo cêntrico), frequência de apertamento ou scores de questionários validados, independente de ser um resultado transitório;
- Risco: quando a utilização de alinhadores foi associada com aumento estatisticamente significativo da frequência de bruxismo, atividade muscular fásica (bruxismo excêntrico) ou prevalência de bruxismo auto-relatada.
Diante da literatura limitada, contraditória e com alta heterogeneidade, as evidências analisadas pelos os autores apontam para uma resposta predominantemente neutra:
- Bruxismo do sono: os alinhadores não podem ser considerados nem fatores de risco nem de proteção para o bruxismo do sono, apesar de terem capacidade de modular aspectos específicos da atividade muscular mastigatória (intensidade e tipo de contração);
- Bruxismo de vigília: não foram detectadas alterações significativas na frequência da
atividade muscular mastigatória durante o dia com o uso de alinhadores na maioria
dos estudos, apesar de alguns padrões de recrutamento muscular terem sido detectados;
Um ponto crítico identificado foi a diferença nos métodos diagnósticos utilizados entre os estudos, variando entre:
- Objetivos: Uso de eletromiografia (EMG) portátil e monitoramento de movimentos mandibulares.
- Subjetivos: Questionários de auto-relato, escalas visuais analógicas (VAS) e o Oral
Behaviours Checklist (OBC).
Os dados mostram que o relato do paciente (subjetivo) frequentemente não coincide com a atividade muscular real (objetiva), sugerindo que a percepção de bruxismo pode ser apenas uma consciência aumentada pela presença do dispositivo. Além disso, a maioria dos estudos ainda apresenta qualidade de evidência de baixa a moderada. As principais limitações relatadas pelos próprios autores da revisão sistemática incluem amostras reduzidas, alta heterogeneidade de prazos de follow-up e a falta de padronização nos critérios diagnósticos de bruxismo “definido” versus “provável”.
Existe ainda uma consideração importante a ser feita além das limitações citadas pelos autores: o desenho de estudo ideal para determinar fator de risco de uma condição é o coorte e dentro da revisão foram incluídos apenas 2 coortes e outros desenhos (caso-controle, transversais, quasi-experimental ensaios clínicos randomizados). Isso deve ter ocorrido pelo fato de haver poucos estudos com o desenho ideal para responder a pergunta clínica. Assim, os autores optaram por abranger mais desenhos de estudo para ampliar o número de artigos selecionados. Dessa forma, apesar de ser uma revisão sistemática, é preciso ter cuidado com os resultados encontrados.
Até o momento, os alinhadores ortodônticos não podem ser classificados como um fator de risco nem de proteção para o bruxismo. O efeito observado é de adaptação neuromuscular temporária, visto que alterações transitórias comportamentais e sintomatológicas relacionados à musculatura da mastigação podem ocorrer durante o tratamento ortodôntico com
alinhadores, mas sem aumento consistente nos parâmetros objetivos de atividade de bruxismo.
Conclusão e Implicação Prática
Os dados mais recentes reforçam que os alinhadores não são indutores de bruxismo. A sensação de apertamento relatada por alguns pacientes deve ser interpretada como uma consciência propioceptiva aumentada ou reflexo de traços psicológicos (ansiedade/ somatização), e não como uma patologia muscular nova.
Dicas práticas de acordo com a metodologia DTC de diagnóstico, tratamento e controle do bruxismo:
- Realize a avaliação de ansiedade e somatização antes do tratamento ortodôntico, aprofundando as perguntas positivas relacionadas ao estresse respondidas pelos pacientes nos questionários do DP4;
- Tranquilize o paciente sobre a fadiga muscular nas primeiras semanas (fase de
adaptação), mas que tendem a reduzir;
- Em caso de crises de dor muscular, seguir as etapas de gestão muscular com técnicas
associativas de laserterapia, agulhamento seco, TENS, termoterapia e liberação
miofascial;
- Somente inicie o tratamento ortodôntico após ter iniciado o tratamento de bruxismo,
focando nas etapas de “Hábitos e Higiene do Sono” e “Suplementação
personalizada”.
Resumindo
A ciência atual desmistifica a ideia de que alinhadores causam bruxismo. O efeito é majoritariamente neutro, apesar de que essa conclusão é baseada em evidências fracas. A percepção de apertamento relatada por alguns pacientes está mais relacionada a fatores psicológicos e à adaptação inicial do que a uma atividade muscular repetitiva induzida pelo tratamento. Assim, é preciso priorizar o diagnóstico de bruxismo antes do início do tratamento ortodôntico.
Referências bibliográficas:
1. PAES-SOUZA, S. D. A.; GARCIA, M. A. C.; SOUZA, V. H.; MORAIS, L.
S.; NOJIMA, L. I.; NOJIMA, M. D. C. G. Response of masticatory muscles to treatment with orthodontic aligners: a preliminary prospective longitudinal study. Dental Press Journal of Orthodontics, Maringá, v. 28,
n. 1, e232198, 2023.
- FRANCOIS, G.; FARELLA, M.; BENNANI, H. The Effect of Clear
Aligners on Awareness of Tooth Clenching. Journal of Oral Rehabilitation, Oxford, v. 53, n. 1, p. 1-7, 2026.
3. TRAN, J.; LOU, T.; NEBIOLO, B.; CASTROFLORIO, T.; TASSI, A.;
CIOFFI, I. Impact of clear aligner therapy on tooth pain and masticatory muscle soreness. Journal of Oral Rehabilitation, Oxford, v. 47, n. 12, p. 1521-1529, 2020.
4. PORPORATTI, A. L.; SCHRODER, Â. G. D.; KUCZERA, M. S.; DE
BARROS, B. B.; BOUCHER, Y. Clear Aligners and Bruxism: A Systematic Review. Journal of Oral Rehabilitation, Oxford, 17 mar. 2026.