A Complexa Intersecção entre Bruxismo do Sono e Apneia Obstrutiva do Sono: Um Guia Cronológico da Ciência e Suas Implicações Clínicas

Na rotina clínica, nós, dentistas, frequentemente nos deparamos com pacientes que apresentam sinais de bruxismo do sono (BS). Paralelamente, na medicina do sono, a apneia obstrutiva do sono (AOS) é um desafio recorrente. Ambos os achados são comuns e impactam significativamente a saúde geral. A possível relação entre BS e AOS tem sido um tema de intenso debate científico, com a pesquisa evoluindo de meras hipóteses para um entendimento mais aprofundado e atual, para soluções terapêuticas inovadoras. Este artigo propõe uma análise cronológica dos estudos mais relevantes, conectando seus achados e explorando as implicações para a prática clínica odontológica e médica.

1. As Observações Preliminares e o Início da Investigação

O interesse na possível ligação entre o bruxismo e os distúrbios respiratórios do sono começou há algumas décadas, com as primeiras investigações já apontando para uma possível associação.

Em um dos estudos iniciais sobre o tema, conduzido por Phillips et al. em 1986, já se observava uma prevalência aumentada da atividade de bruxismo em pacientes diagnosticados com AOS, quando comparados a grupos controle. Este trabalho pioneiro também demonstrou a influência da posição de dormir – especificamente a posição supina – na incidência da AOS e, consequentemente, na atividade de bruxismo durante o sono. Esses achados forneceram as primeiras indicações de que o bruxismo poderia estar interligado a outros distúrbios do sono. Essas observações iniciais, embora limitadas, estabeleceram um ponto de partida para a comunidade científica, sugerindo que a relação entre bruxismo e apneia não era meramente casual, mas possivelmente influenciada por fatores do sono, como a posição.

2. Buscando um Entendimento Mais Claro: Revisões Abrangentes

Com o passar dos anos e o acúmulo de pesquisas, a comunidade científica começou a organizar o conhecimento existente por meio de revisões. Essas análises, por sua vez, revelavam tanto a complexidade do tema quanto a variabilidade na forma como os estudos eram conduzidos.

  • Pauletto et al. (2022): O Desafio da Variabilidade Metodológica

Esta revisão de escopo, publicada em abril de 2022, analisou a literatura sobre a relação BS-AOS. Um dos critérios de inclusão era de estudos com diagnóstico de BS e de AOS somente através de polissonografia. A conclusão dos autores, em adultos,  foi de que não foi possível confirmar uma associação definitiva entre ambas condições. A possível explicação está na falta de padronização dos critérios diagnósticos utilizados nas polissonografias para determinar a presença de BS e AOS. Considerando que os estudos analisados foram publicados entre 1986 e 2020, é possível entender que houveram modificações que ocorreram tanto na definição quanto no entendimento de BS e de AOS. Para crianças, a associação parecia mais provável, apesar de alta heterogeneidade entre os métodos diagnósticos de BS usados nos estudos (polissonografia, diferentes tipos de questionários associados ou não ao exame clínico odontológico). A coexistência de BS e AOS apresentou uma grande variabilidade entre os estudos, 5,22% a 50,84% em adultos e 2,82% a 40,78% em crianças. Os autores ressaltaram a necessidade de metodologias de pesquisa mais consistentes e critérios diagnósticos padronizados.

  • Kuang et al. (2022): Os Microdespertares como Elos Comuns

Nesta revisão sistemática, também de 2022, foi investigada a relação do BS com diversos distúrbios do sono em adultos, incluindo a AOS. A prevalência de BS em pacientes com AOS foi mais alta em comparação à prevalência na população geral sem AOS (33,3% a 53,7% em estudos com baixa risco de viés e utilizando confirmação por polissonografia). A variabilidade da prevalência foi discutida pelos autores como tendo sido gerada pela diferença nos critérios diagnósticos polissonográficos de BS. O mecanismo da associação entre BS e distúrbios do sono ainda não estava claro, mas as evidências indicavam o microdespertar do sono como um fator comum e chave, ligando o BS não apenas à AOS, mas também a outras condições como a Síndrome das Pernas Inquietas, o Refluxo Gastroesofágico e a Epilepsia. A revisão sugeriu que o bruxismo estava mais associado à essa fragmentação do sono através desses microdespertares do que diretamente aos eventos respiratórios obstrutivos. Este achado sublinhou a importância de dentistas e médicos do sono colaborarem para identificar e gerenciar essas comorbidades.

  • Alshahrani et al. (2023): A Associação Confirmada, mas com Ressalvas

Esta revisão sistemática, de 2023, também investigou a prevalência do BS em pacientes com AOS. Mesmo com o uso de critérios rigorosos, resultando na inclusão de apenas 2 estudos primários sendo um deles o de Phillips et al., 1986, ambos indicaram uma prevalência maior de BS em pacientes com AOS. Os autores sugerem que o tratamento de AOS pode melhorar  o quadro de BS e vice versa. A revisão concluiu que existe uma “relação definitiva” entre BS e AOS, mas reforçou a necessidade de pesquisas futuras com acompanhamentos longitudinais e amostras maiores para solidificar essas conclusões e fornecer estimativas de prevalência mais precisas.

3. Uma Visão Crítica: A Meta-análise que Questiona a Prova da Associação

Quando uma parte da comunidade científica parecia concordar com a associação, um estudo com alto rigor estatístico trouxe uma visão mais crítica, questionando a solidez das evidências que sustentavam essa relação.

  • Błaszczyk et al. (2024): A Ausência de Correlação Estatística Clara

Esta revisão sistemática com meta-análise analisou 14 estudos, com 1693 pacientes no total, buscando examinar a relação  estatística entre BS e AOS. Os resultados não demonstraram uma associação estatisticamente significativa entre a presença de BS e AOS, o que se manteve mesmo ao categorizar por gravidade da AOS ou por gênero. Os autores atribuíram a falta dessa significância ao alto risco de viés da maioria dos estudos incluídos e também à alta heterogeneidade entre eles, levando a uma limitação crucial que impacta diretamente a robustez das conclusões. Os autores sugeriram que a coexistência de BS e AOS poderia, em alguns casos, ser um epifenômeno, ou seja, ocorrências coincidentes que não necessariamente implicam uma relação causal direta. Apesar da ausência de correlação estatística, os autores reforçaram que esses resultados não devem isentar os profissionais de saúde da necessidade de um diagnóstico preciso de condições do sono concomitantes em pacientes com AOS.

O trabalho de Błaszczyk et al. (2024) trouxe uma dose de ceticismo científico ao debate. Diferentemente de revisões anteriores que indicavam uma associação a partir da prevalência, esta meta-análise não conseguiu confirmá-la com base na evidência existente. A meta-análise é uma ferramenta estatística poderosa que analisa os resultados considerando a amostra total da soma dos estudos incluídos, o que aumenta a força dos resultados. Mas isso não refuta a coexistência observacional de SB e AOS, pelo contrário, levanta questões importantes sobre a qualidade dos dados, demonstrando a necessidade de estudos de alta qualidade metodológica e baixo risco de viés para que as respostas necessárias no dia-a-dia clínico sejam obtidas com maior confiança.

4. A Síntese Contemporânea: Fatores de Risco, Mecanismos e Abordagens Terapêuticas

Os trabalhos mais recentes buscam uma compreensão mais completa, unindo as descobertas e propondo explicações que levem em conta a complexidade dessas interações.

  • Doblado et al. (2025): Refinando a Compreensão da Relação BS-AOS

Esta revisão sistemática, publicada em julho de 2025, oferece uma síntese atualizada da literatura sobre a relação entre BS e AOS. Foram selecionados 11 estudos publicados entre 2020 e 2025, com objetivo de reduzir a heterogeneidade dos critérios diagnósticos e desenhos de estudos, além de assegurar o uso de dados relevantes. O resultado encontrado foi de que o bruxismo é altamente prevalente em pacientes com apneia (entre 42,9% e 49,7% dos casos) em comparação à população geral. A revisão aponta possíveis mecanismos fisiopatológicos da relação entre as condições, sugerindo que o BS poderia agir como uma resposta compensatória para abrir as vias aéreas durante episódios obstrutivos, através da movimentação da mandíbula. Além disso, a relação com os microdespertares e a ativação do sistema nervoso autônomo (aquele que controla funções involuntárias) são destacados como elos importantes. Fatores de risco compartilhados, como sexo masculino, consumo de álcool, insônia, uso de antidepressivos e obesidade, estão associados ao aumento de episódios de BS no contexto da AOS. Os autores ainda citam que intervenções terapêuticas para a AOS, como a Pressão Positiva Contínua nas Vias Aéreas (CPAP) e os Aparelhos de Avanço Mandibular (AAM), reduzem significativamente a atividade do bruxismo. No entanto, o estudo também aponta para inconsistências em alguns critérios diagnósticos e heterogeneidade entre os estudos.

5. Um Novo Paradigma: O Tratamento da Apneia e o Papel da Obesidade

Enquanto a discussão sobre a associação BS-AOS continua, importantes avanços no tratamento da apneia, especialmente quando associada à obesidade, estão redefinindo as estratégias terapêuticas.

  • Malhotra et al. (2024): Tirzepatida como Terapia Farmacológica Pioneira para a AOS

Publicado em outubro de 2024 no prestigiado New England Journal of Medicine, este estudo demonstrou que a tirzepatida, um medicamento conhecido por sua eficácia na perda de peso, é altamente eficaz na redução do Índice de Apneia-Hipopneia (IAH) em adultos com AOS e obesidade. Os pacientes tratados com tirzepatida apresentaram uma redução significativa do peso corporal e do IAH, além de melhora na carga hipóxica, na percepção da qualidade do sono e na diminuição de marcadores de risco cardiovascular. Este estudo representou um marco significativo, pois a tirzepatida emergiu como a primeira intervenção farmacológica a demonstrar eficácia direta no tratamento da AOS para este perfil de paciente.

O estudo de Malhotra et al. (2024) confirma a obesidade como um fator-chave para o desenvolvimento da AOS. Ao demonstrar que a redução de peso medicamentosa trata eficazmente a AOS, ele abre um novo caminho. Se o bruxismo é, de fato, uma resposta secundária à AOS (como sugerido por Kuang et al., 2022, e Doblado et al., 2025), então o tratamento eficaz da AOS, como o proporcionado pela tirzepatida, tem o potencial de influenciar positivamente a frequência e a intensidade do bruxismo.

6. A Concretização da Inovação no Brasil: Mounjaro e a Nova Opção Terapêutica

O resultado de anos de pesquisa e desenvolvimento agora se torna uma realidade clínica no Brasil, trazendo implicações diretas para o manejo dos pacientes.

  • Notícia G1 (2025): A Aprovação da Tirzepatida pela ANVISA no Brasil

Em outubro de 2025, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) no Brasil aprovou o uso do Mounjaro (com o princípio ativo tirzepatida) para o tratamento da apneia do sono em adultos com obesidade. Este marco é importante, pois se trata do primeiro medicamento com essa indicação no país, oferecendo uma alternativa terapêutica que atua de maneira multifacetada, especialmente por meio da indução de perda de peso significativa. A notícia salientou que a eficácia da tirzepatida foi comprovada em estudos clínicos, demonstrando capacidade de reduzir substancialmente as interrupções respiratórias durante o sono, além de melhorar a qualidade geral do sono e diminuir fatores de risco cardiovasculares associados.

A aprovação do Mounjaro pela ANVISA torna concreto o que o estudo de Malhotra et al. (2024) mostrou. Esta medicação torna-se mais uma opção de tratamento e controle da apneia do sono. Além disso, é possível extrapolar os resultados encontrados por Doblado et al. (2025) que o Mounjaro possa ter um impacto positivo no tratamento e controle do bruxismo concomitante à apneia, conforme foi demonstrado no uso do CPAP e das AAM.

Considerações Finais e Implicações para a Clínica Odontológica

A jornada científica para entender a relação entre bruxismo do sono e apneia obstrutiva do sono é complexa e continua a evoluir. Embora a busca por uma causa direta e universal do bruxismo pela apneia ainda seja um tema de pesquisa ativa — com alguns estudos apontando para uma associação clara em certos contextos e outros questionando a prova estatística devido à forma como os estudos foram feitos —, a alta frequência em que as duas condições coexistem e a identificação de mecanismos comuns (especialmente os microdespertares) sugerem uma interconexão importante.

Para nós, dentistas, o bruxismo do sono é frequentemente um sintoma que nos traz o paciente. As evidências atuais indicam que é prudente avaliar fatores de risco e considerar a triagem para apneia em pacientes com sinais clínicos de bruxismo, principalmente aqueles com obesidade, insônia, consumo de álcool ou que usam antidepressivos. Intervenções terapêuticas para a apneia, como os aparelhos de avanço mandibular (que fazem parte da atuação odontológica) ou as novas abordagens medicamentosas como a tirzepatida, podem ter um impacto positivo na redução do bruxismo.

A era atual exige uma abordagem verdadeiramente interdisciplinar, onde dentistas, médicos do sono e outros especialistas trabalhem juntos para um diagnóstico preciso e um plano de tratamento integrado. Inovações como a tirzepatida não apenas transformam o tratamento da apneia, mas também abrem novas perspectivas para o manejo do bruxismo, reafirmando que o cuidado com o sono é fundamental para a saúde geral e bucal de nossos pacientes.

Conclusão clínica

Para o cirurgião-dentista que atua na clínica diária cabe a responsabilidade de diagnosticar o bruxismo e a AOS como achados que podem estar acontecendo de forma concomitante ou o paciente pode apresentar  o bruxismo do sono de forma isolada. Vai depender exclusivamente do diagnóstico diferencial do dentista a conclusão da melhor rota terapêutica para esse paciente. O manejo da AOS pode e deve contar com outros profissionais e sendo a obesidade um fator chave para SAOS o tratamento dessa doença crônica multifatorial se faz muito relevante.

Referências Bibliográficas:

Phillips BA, Okeson J, Paesani D, Gilmore R. Effect of sleep position on sleep apnea and parafunctional activity. Chest 1986;90:424–9. [Citado em Alshahrani et al., 2023]

Pauletto P, Polmann H, Réus JC, et al. Sleep bruxism and obstructive sleep apnea: association, causality or spurious finding? A scoping review. SLEEP. 2022;45(7):zsac073

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Alshahrani AA, Alshadidi AAF, Alamri MAA, et al. Prevalence of bruxism in obstructive sleep apnea syndrome (OSAS) patients: A systematic review conducted according to PRISMA guidelines and the cochrane handbook for systematic reviews of interventions. J Oral Rehabil. 2023;50(11):1362-1368.

Błaszczyk B, Waliszewska-Prosół M, Więckiewicz M, et al. Sleep bruxism (SB) may be not associated with obstructive sleep apnea (OSA): A comprehensive assessment employing a systematic review and meta-analysis. Sleep Med Rev. 2024;78:101994.

Malhotra A, Grunstein RR, Fietze I, et al. Tirzepatide for the Treatment of Obstructive Sleep Apnea and Obesity. N Engl J Med. 2024 Oct 3;391(13):1193-1205.

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