Cafeína, Energéticos e Bruxismo – O impacto silencioso de um hábito comum

Olá, dentista! Você já se perguntou se aquele cafezinho ou pré-treino que o seu paciente consome rotineiramente pode ter relação direta com o desgaste dentário detectado ou a dor de cabeça relatada? Historicamente, a odontologia focou o tratamento do bruxismo e suas consequências quase exclusivamente na proteção mecânica. Contudo, as evidências contemporâneas demonstram que o bruxismo é uma atividade muscular repetitiva mediada pelo Sistema Nervoso Central (SNC)¹ e, portanto, altamente sensível a estímulos químicos oriundos do estilo de vida². Nesta edição, mergulhamos nas evidências mais recentes — incluindo estudos de 2026 — para entender como a cafeína e os energéticos agem como “combustível” para o ranger de dentes e a destruição do esmalte.

Qual o impacto real do consumo de cafeína (café e energéticos) na intensidade do bruxismo e na integridade estrutural dos dentes? Buscamos responder a essa pergunta por meio de uma curadoria científica com estudos publicados entre 2001 e 2026. Mas para entendermos o impacto clínico real, precisamos primeiro olhar de perto para essa molécula que está presente na rotina de quase todos os nossos pacientes.

Como a Cafeína “Sequestra” o Sistema Nervoso

A cafeína é um alcaloide do grupo das metilxantinas, amplamente consumido globalmente como estimulante do SNC³. Ela está presente no café, em chás (como o chá preto), no chocolate, em refrigerantes de cola e, de forma massiva, em bebidas energéticas e suplementos pré-treino⁴. No organismo, seu principal mecanismo de ação é o antagonismo não seletivo dos receptores de adenosina, principalmente os subtipos A1 e A2A, localizados no cérebro ⁵. Durante o dia, a adenosina se acumula no espaço extracelular, gerando o que chamamos de “pressão do sono” e inibindo a atividade neuronal para nos preparar para o descanso. Quando a cafeína é consumida, quase 100% é absorvida, atingindo o cérebro rapidamente6. Ela bloqueia os receptores A1 e A2A, impedindo a inibição natural dos neurônios. O resultado disso é um aumento imediato na liberação de neurotransmissores excitatórios, como dopamina e glutamato, que elevam o estado de alerta e a estimulação psicomotora³. 

A meia-vida de eliminação da cafeína em adultos saudáveis varia de 3 a 7 horas, com uma média de 5 horas6,7. Esse tempo pode ser drasticamente alterado por fatores individuais: o tabagismo acelera a eliminação, enquanto a gestação, disfunção hepática6,7 ou anticoncepcionais orais a prolongam substancialmente7. Estudos clínicos provam que a ingestão de cafeína, mesmo 6 horas antes de deitar, reduz o tempo total de sono em mais de 1 hora e aumenta a fragmentação através de micro-despertares (arousals)7. Além disso, a cafeína interage de forma complexa com outras substâncias; outros estimulantes do SNC podem limitar seu transporte através da barreira hematoencefálica como defesa contra a toxicidade8. A interação com o álcool é particularmente perigosa, pois a cafeína mascara os efeitos sedativos (fenômeno da “embriaguez desperta”), enquanto ambas as substâncias fragmentam o sono e promovem desidratação⁴. Por isso, a higiene do sono, com uma janela de restrição de 6 a 10 horas antes de deitar, é inegociável7. O cuidado deve ser redobrado com bebidas de cafeína sintética (sodas e energéticos), que possuem concentrações massivas e pH extremamente ácido (abaixo de 3,0), causando erosão química severa e vulnerabilidade ao desgaste mecânico9,10.

Quando o Estímulo se Torna Movimento involuntário

Quando pensamos no bruxismo, precisamos entender que ele não é apenas uma atividade muscular periférica; ele é uma manifestação direta do SNC¹. Estudos identificaram genes, como NLGN1 e RIMBP2, expressos no cérebro, que regulam essa atividade motora11. A cafeína atua bloqueando os receptores de adenosina5, mantendo o sistema em estado de hiperexcitabilidade e facilitando contrações musculares involuntárias, favorecendo o bruxismo. Para piorar o cenário estrutural, a ingestão constante de cafeína promove a erosão do esmalte e da dentina por meio do sequestro de elementos minerais essenciais, como cálcio e fosfato12, fragilizando a estrutura da coroa dental. 

A prova científica

A evidência deixou de ser apenas subjetiva. Um estudo clínico13 avaliou o impacto do café e chá preto na intensidade do bruxismo noturno e na arquitetura do sono em 106 adultos. Utilizando eletromiografia e polissonografia com gravação da noite do exame, a pesquisa revelou que consumidores habituais de café apresentam um Índice de Episódios de Bruxismo (BEI) significativamente maior, comparado a não consumidores: 4,59 contra 2,87. Não houve diferença significativa na arquitetura do sono entre os grupos teste e controle. Curiosamente o grupo teste de chá preto também não demonstrou diferenças em comparação ao controle. Isso mostra que a cafeína, principalmente do café, é um fator de risco para o bruxismo do sono, aumentando a atividade muscular noturna.

A Ameaça dos Energéticos: O Risco Triplo

Dados de 202614 mostram que o consumo diário de energéticos eleva em quase 2 vezes a chance do bruxismo se manifestar (OR ajustado=1,9). Esse recente estudo analisou a prevalência de bruxismo auto-relatado em 1373 participantes com idades entre 18 e 30 anos e analisou a relação com o consumo de energéticos.  O perigo é triplo: químico (altas doses de cafeína e taurina estimulando o sistema neuromuscular), ácido (pH extremamente baixo, até 2,72, favorecendo erosão química dental)9 e hipossialia (redução do fluxo salivar, removendo a proteção natural dos dentes e mucosa oral)10. Além disso, hábitos como o tabagismo agem em sinergia, aumentando significativamente a ocorrência e a gravidade do bruxismo do sono15.

O Elo Emocional: A Ansiedade como Amplificadora do Dano

A cafeína não age sozinha. Ela exacerba estados de ansiedade, que funcionam como um mediador fundamental. Pacientes ansiosos percebem mais o bruxismo e a dor orofacial, mesmo quando a atividade muscular medida na polissonografia não é tão extrema quanto a sensação subjetiva16,17. Isso mostra que o estímulo químico da cafeína amplifica tanto a resposta emocional quanto a tensão muscular.

Aplicação Clínica

Pare de culpar apenas a oclusão. Se o seu paciente consome energéticos ou mais de 3 cafés por dia (especialmente após as 15h), a placa estabilizadora terá sua eficácia reduzida em até 40%. O foco deve estar no manejo sistêmico e na higiene do sono. 

Conclusão e Conduta Prática

Para uma abordagem clínica de excelência, recomenda-se:

  1. Anamnese Direcionada: Pergunte especificamente sobre café, pré-treinos e energéticos. Dentro da metodologia DTC, na fase de diagnóstico do bruxismo, a escuta ativa é o momento de obter essas informações dos pacientes.
  2. Hábitos e Higiene do Sono: Na fase de tratamento (somente APÓS o diagnóstico fechado), oriente o paciente a interromper o consumo de cafeína pelo menos 8 a 10 horas antes de dormir.
  3. Teste de pH salivar/Sialometria: Em pacientes com sinais claros de erosão dental, é necessário avaliar o pH da saliva basal e caso esteja alterado, realizar o exame salivar completo (sialometria em repouso e estimulada mecanicamente) para verificar se a qualidade e quantidade de saliva estão alteradas.
  4. Abordagem Interdisciplinar: Casos de bruxismo severo associado à ansiedade e alto consumo de cafeína podem exigir suporte psicológico e médico para o desmame seguro do estimulante.

Referências Bibliográficas

  1. KUHN, Monika; TÜRP, Jens Christoph. Risk factors for bruxism: A review of the literature from 2007 to 2016. Swiss Dental Journal SSO, v. 128, n. 2, p. 118–124, 2018.
  2. YOUNG, William George. The oral medicine of tooth wear. Australian Dental Journal, v. 46, n. 4, p. 236-250, 2001.
  3. FISONE, Gilberto; BORGKVIST, Andreas; USIELLO, Alessandro. Caffeine as a psychomotor stimulant: mechanism of action. Cellular and Molecular Life Sciences, v. 61, n. 7-8, p. 857–872, 2004.
  4. DE SANCTIS, Vincenzo; SOLIMAN, Nada; SOLIMAN, Ashraf T.; ELSEDY, Heba; DI MAIO, Salvatore; EL KHOLY, Mohamed; FISCINA, Bernadette. Caffeinated energy drink consumption among adolescents and potential health consequences associated with their use: a significant public health hazard. Acta Biomedica, v. 88, n. 2, p. 222-231, 2017.
  5. FERRÉ, Sergi. An update on the mechanisms of the psychostimulant effects of caffeine. Journal of Neurochemistry, v. 105, n. 4, p. 1067–1079, 2008.
  6. EVANS, Justin; RICHARDS, John R.; BATTISTI, Amanda S. Caffeine. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing, 2024. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30137774/. Acesso em: 20 jun. 2026.
  7. DRAKE, Christopher; ROEHRS, Timothy; SHAMBROOM, John; ROTH, Thomas. Caffeine effects on sleep taken 0, 3, or 6 hours before going to bed. Journal of Clinical Sleep Medicine, v. 9, n. 11, p. 1195-1200, 2013.
  8. IKEDA-MURAKAMI, Kei; TANI, Naoto; IKEDA, Tomoya; AOKI, Yayoi; ISHIKAWA, Takaki. Central Nervous System Stimulants Limit Caffeine Transport at the Blood–Cerebrospinal Fluid Barrier. International Journal of Molecular Sciences, v. 23, n. 3, p. 1862, 2022.
  9. CLAPP, Oliver; MORGAN, Maria Z.; FAIRCHILD, Ruth M. The top five selling UK energy drinks: implications for dental and general health. British Dental Journal, v. 226, n. 7, p. 493-497, 2019.
  10. YOUNG, William George. Tooth wear: diet analysis and advice. International Dental Journal, v. 55, n. 2, p. 68–72, 2005.
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  12. MANNO, Sinai H.C.; MANNO, Francis A.M.; AHMED, Irfan; AHMED, Rafay; SHU, Lei; LI, Li; XU, Shisan; XIE, Fangjing; LI, Vincent Wai; HO, Johnny; CHENG, Shuk Han; LAU, Condon. Spectroscopic examination of enamel staining by coffee indicates dentin erosion by sequestration of elements. Talanta, v. 189, p. 550–559, 2018.
  13. FROSZTEGA, Weronika; WIECKIEWICZ, Mieszko; NOWACKI, Dorian; POREBA, Rafal; LACHOWICZ, Gabriella; MAZUR, Grzegorz; MARTYNOWICZ, Helena. The effect of coffee and black tea consumption on sleep bruxism intensity based on polysomnographic examination. Heliyon, v. 9, n. 5, p. e16212, 2023.
  14. SHARAIREH, Aseel M.; ALKAABNEH, Musab M.; ALSAKET, Hamzeh E.; ABDELHALEEM, Hamza I.; HAMMAD, Amr I.; ISMAIL, Noor H.; ALRAHEAM, Islam Abd; ALJAMANI, Sanaa; SMADI, Leena; HASSONEH, Yazan; AL-RABAB’AH, Mohammad A. Prevalence of Bruxism Among Young Adult Energy Drink Consumers in Jordan. Journal of Clinical Medicine, v. 15, n. 1, p. 203, 2026.
  15. ORZESZEK, Sylwia; MARTYNOWICZ, Helena; SMARDZ, Joanna; KRESSE-WALCZAK, Katarzyna; WOJAKOWSKA, Anna; BOMBAŁA, Wojciech; BORT, Marta; WIECKIEWICZ, Mieszko. Assessment of the relationship between sleep bruxism, reported pain and headache, selected health factors, and general health conditions among temporomandibular disorder patients: A preliminary report. Dental and Medical Problems, v. 62, n. 2, p. 393–399, 2025.
  16. CHATTRATTRAI, Thiprawee; BLANKEN, Tessa F.; LOBBEZOO, Frank; SU, Naichuan; AARAB, Ghizlane; VAN SOMEREN, Eus J. W. A network analysis of self-reported sleep bruxism in the Netherlands sleep registry: its associations with insomnia and several demographic, psychological, and life-style factors. Sleep Medicine, v. 93, p. 63-70, 2022.
  17. CHATTRATTRAI, Thiprawee; AARAB, Ghizlane; BLANKEN, Tessa F.; LOBBEZOO, Frank; VAN SOMEREN, Eus J. W.; SU, Naichuan; MANFREDINI, Daniele; DAL FABBRO, Cibele; TUFIK, Sergio; BITTENCOURT, Lia. Network analysis of sleep bruxism in the EPISONO adult general population. Journal of Sleep Research, v. 33, n. 1, p. e13957, 2024.

Nota de Ressalva Técnica: Os estudos de Sharaireh (2026) e Pecori (2024) foram publicados em revistas que constam em listas de monitoramento de práticas predatórias (MDPI). Recomenda-se cautela clínica na interpretação dos resultados apresentados até que estes sejam replicados por estudos publicados em outros periódicos.

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